A apresentação de êmese e diarreia aguda é uma das queixas mais frequentes na rotina clínica de pequenos animais. Diante de um cão com sinais gastrointestinais há três dias, o risco de desidratação e desequilíbrio acidobásico aumenta consideravelmente. O grande desafio do médico-veterinário não é apenas cessar os sintomas de forma paliativa, mas estabelecer um raciocínio clínico estruturado para identificar a causa de base com precisão.

1. A Importância da Anamnese Estratégica
Antes de solicitar uma bateria extensa de exames, a anamnese bem direcionada é a sua principal ferramenta diagnóstica. O histórico do paciente ajuda a afunilar as suspeitas de forma lógica.

Perguntas essenciais durante a triagem:
- Status vacinal e idade: Pacientes jovens ou com esquema vacinal incompleto elevam a suspeita de doenças virais, como a Parvovirose canina.
- Acesso à rua e ambiente: Fundamental para mensurar o risco de ingestão de corpos estranhos, lixo, composteiras ou toxinas (plantas venenosas, produtos químicos).
- Características das fezes: É imperativo diferenciar clinicamente a origem anatômica. Diarreia de intestino delgado cursa com grande volume, possível melena e ausência de tenesmo. Já a de intestino grosso apresenta muco, hematoquezia, tenesmo e aumento na frequência das defecações.
2. Afecções Primárias vs. Secundárias (Extra-TGI)
Um erro comum na prática clínica é assumir que todo vômito e diarreia se originam exclusivamente de uma doença intrínseca do trato gastrointestinal (TGI). A lista de diferenciais deve ser dividida em duas frentes para guiar a investigação:
- Causas Primárias (Intra-TGI): Indiscrição alimentar grave, parasitoses (Giardia, helmintos), infecções virais ou bacterianas (Coronavírus, patógenos entéricos), obstruções mecânicas (corpos estranhos), intussuscepção ou enteropatias inflamatórias de caráter agudo.
- Causas Secundárias (Extra-TGI): Doenças sistêmicas que desencadeiam o reflexo emético e a enterite secundária, tais como Insuficiência Renal Aguda (IRA), hepatopatias severas, pancreatite, hipoadrenocorticismo (Doença de Addison) e quadros de sepse.

3. Exames de Triagem: Por onde começar a investigação?
Com um paciente sintomático e perdendo líquidos há 72 horas, o suporte clínico terapêutico (como a fluidoterapia intravenosa e o controle da náusea) deve ocorrer simultaneamente à investigação diagnóstica. Os exames iniciais de eleição recomendados são:
- Hemograma Completo e Bioquímica Sérica: Permitem avaliar o hematócrito (diferenciando hemoconcentração por desidratação de anemia por perdas gástricas), o leucograma (indicativo de processos infecciosos, inflamatórios ou estresse) e a avaliação das enzimas hepáticas e renais (ALT, FA, Ureia e Creatinina).
- Ultrassonografia Abdominal: Considerado o exame de imagem padrão-ouro inicial para avaliar a motilidade, espessura das alças intestinais, reatividade de linfonodos mesentéricos e, primordialmente, descartar urgências cirúrgicas como corpos estranhos lineares.
- Testes Rápidos (SNAP) e Coproparasitológico: Testes de antígeno para parvovirose (especialmente em filhotes) ou giardíase, complementados pela avaliação fecal direta ou técnica de flutuação.

Lembre-se: O manejo de emergência deve focar prioritariamente na estabilização hemodinâmica do paciente, restaurando a perfusão tecidual e o equilíbrio hidroeletrolítico, enquanto os exames complementares são processados para confirmar o diagnóstico definitivo.
